domingo, 22 de novembro de 2020

Sobre amores platônicos de escritório



Havia algo nele que já falava comigo desde que nos conhecemos - ou muito pouco depois disso.

Recordo-me de como me senti identificada com ele quando soube que tocava em uma banda de rock - e do meu esforço durante a festa de fim de ano do escritório para fazê-lo perceber que tínhamos isso em comum quando rolou um som dos anos 80.
A mesma coisa aconteceu quando vi em sua mesa um CD do Whitesnake e mencionei o show no qual tinha estado recentemente, apenas para descobrir que nós dois havíamos sido público daquela apresentação. Nosso primeiro vínculo.
Foram algumas situações como estas para colecionar desde então. Um comentário sobre o último filme de Star Wars ou a respeito do tema de uma camiseta me fizeram chegar onde estou hoje.
Passei uma viagem inteira ao Jalapão ouvindo repetidamente o rock nacional de um pendrive achado na Hilux alugada (a única música disponível), sem entender o motivo de imaginar se ele também vivia experiências similares, sentindo-se livre e vivo durante o percurso.

Mas foi somente na semana passada, depois de mais de 6 anos vendo-o dia após dia, que pude perceber o quanto ele me afeta. Foi um comentário inocente, repleto de testemunhas e pensado para ser uma piada em relação à minha urgência em resolver um problema com a ajuda dele depois da semana em que ele ficou fora do escritório. Eu falei rindo. E assim lutei internamente para continuar enquanto seu rosto se tornou vermelho e  incapaz de direcionar os olhos para mim.

Acho que foi a reação dele o que me fez enxergá-lo como uma possibilidade. E apesar da imensa consciência do platonismo desse sentimento, passei a prestar atenção em todos os detalhes da nossa convivência: uma visita à minha sala ao invés do uso do ramal, pequenos comentários pessoais que passaram a revelar discretos aspectos de humanidade, a cumplicidade nos sorrisos e olhares que começamos a trocar em situações que antes eram apenas problemáticas e pelas quais agora anseio, os toques ocasionais nos ombros e principalmente a melancolia quando vejo que seu carro não está mais no estacionamento.

Eu que passei o último ano muito próxima do esgotamento em razão de todas as situações limítrofes às quais fui exposta, agora até consigo sentir satisfação por estar vivendo tudo isso com ele.

E absolutamente nada de bom pode vir desse novo panorama.
Preciso encontrar com urgência um novo emprego. Ou uma forma de fazer as coisas voltarem a ser como eram antes. 

Enquanto isso, retomo a adesão ao home office.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

'Sobre o desafio "31 DIAS DE TERROR": Dias 2 e 3 - Frankenstein (1931) e A noiva de Frankenstein (1935)


SEMANA 1: MONSTROS CLÁSSICOS

Os filmes de monstros praticamente inauguraram o gênero de terror no cinema mainstream. Entre as décadas de 1920 e 1950 a Universal Pictures investiu pesado neste tipo de filme, levando às telonas monstros já conhecidos da literatura, como o vampiro Drácula, Frankenstein, Dr. Jekyll & Mr. Hyde e o Homem Invisível, por exemplo. 

Atores como Boris Karloff e Bela Lugosi se imortalizaram em seus papéis horripilantes. A fórmula fez tanto sucesso que o estúdio investiu até em crossovers destes monstros, que chegaram a dividir tela em algumas produções.

Agenda de filmes: 

01/10 – Drácula de Bram Stoker (1992)

02/10 – Frankenstein (1931)

03/10 – A Noiva de Frankenstein (1935)

04/10 – A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

05/10 – O que fazemos nas sombras (2014)

06/10 – Um Lobisomem Americano em Londres (1981)

07/10 – O Homem Invisível (2020)

 

Eu gostei muito de rever esta sequência. Estranhamente, tinha a impressão de que o Frankenstein dos livros não era tão monstruoso como nos filmes, havendo nele uma réstia de humanidade expressa no vínculo com seu criador, que na minha percepção praticamente inexiste no decorrer destas obras (apesar de ficar evidente em uma das últimas cenas de "A Noiva de Frankenstein" quando poupa a vida de Dr. Henry.
No mais, esses clássicos em P&B me dão um calorzinho no coração!


Eis aqui algumas curiosidades sobre filmes:

Dois clássicos do cinema de horror, Frankenstein (1931) e A Noiva de Frankenstein (1935), estrelados por Boris Karloff, merecem ser revisitados em qualquer época.


Foi há 200 anos que Frankenstein viu a luz do dia. A ideia do romance surgiu em uma noite chuvosa de verão na Suíça, onde Mary Shelley passava férias ao lado de dois poetas ingleses: Percy Bysshe Shelley, seu futuro marido, e o célebre Lord Byron, locatário da residência onde o casal estava hospedado. Como os três estavam presos em casa em função da tempestade, Lord Byron sugeriu um passatempo. O poeta, ícone do romantismo, desafiou cada um dos presentes a escrever uma história de fantasmas (e não poderia haver atmosfera mais adequada à temática!).

Em um primeiro momento, Mary Shelley relutou em aceitar o desafio. Alguns dias depois, entretanto, a escritora teve a visão de um jovem estudante dando vida a ossos que havia recolhido de uma sepultura. Assim, com apenas 18 anos, Mary Shelley criou Frankenstein. A ideia virou um conto e foi apresentado aos demais presentes na casa. Esta é a primeira cena de "A Noiva de Frankenstein".

A ideia de adaptar o romance de Mary Shelley surgiu na sequência do sucesso de “Drácula” (1931) também produzido pela Universal Studios. Vindo deste sucesso, Bela Lugosi tinha sido originalmente escalado como Dr. Frankenstein. Mas o papel de Lugosi foi modificado para ser o monstro, que era mudo, e ele recusou após alguns testes ruins com a maquiagem, sendo então substituído por Boris Karloff, que na época era um ator inglês pouco conhecido de 44 anos de idade. A decisão tomada pelo ator húngaro é geralmente apontada como o maior erro da carreira, já que depois de “Drácula”, ele nunca mais conseguiu um papel à sua altura, vivendo na sombra do vampiro até à data da sua morte, quando foi enterrado com a capa de seu personagem.


Já Karloff conseguiu aproveitar a fama adquirida e desenvolver uma carreira de sucesso no cinema de terror longe de “Frankenstein”. O ator fez cerca de 140 filmes, a maioria deles com temática fantástica. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, Karloff só voltou mais duas vezes a Frankenstein, nas sequencias “A noiva de Frankenstein” (1935) — que imortalizou Elsa Lanchester no papel da noiva, com o seu cabelo preto ondulado e madeixas brancas em forma de raio, apesar de aparecer apenas durante alguns minutos em cena — e “O filho de Frankenstein” (1939) — que contou com a participação de Bela Lugosi no papel de Ygor, um ferreiro com uma deformação no pescoço.

A trilha sonora de A Noiva de Frankenstein fez tanto sucesso que foi reutilizada na série do personagem Flash Gordon estrelada por Buster Crabbe.

Fontes: Cinema Livre, TAG Livros, Dalengare, Observador.pt e Boca do Inferno.

domingo, 4 de outubro de 2020

Sobre o desafio "31 DIAS DE TERROR": Dia 1 - Drácula de Bram Stoker (1992)



Eu adoro o Dia das Bruxas. Uma das minhas tradições é a de assistir, todo dia 31 de outubro, o antigo Abracadabra, da Disney. Sei que teria adorado ser americana nestas ocasiões, e viver toda a simbologia e costumes desta data na pele.

E foi este meu histórico que me fez empolgar demais com o desafio dos 31 DIAS DE TERROR da Darkisde (clica no link pra ver a matéria completa).

A proposta é simples: ter um mês inteirinho de terror, com um filme sugerido por dia.
Parafraseando Barney Stinson: challenged accepted!


SEMANA 1: MONSTROS CLÁSSICOS
Os filmes de monstros praticamente inauguraram o gênero de terror no cinema mainstream. Entre as décadas de 1920 e 1950 a Universal Pictures investiu pesado neste tipo de filme, levando às telonas monstros já conhecidos da literatura, como o vampiro Drácula, Frankenstein, Dr. Jekyll & Mr. Hyde e o Homem Invisível, por exemplo. 

Atores como Boris Karloff e Bela Lugosi se imortalizaram em seus papéis horripilantes. A fórmula fez tanto sucesso que o estúdio investiu até em crossovers destes monstros, que chegaram a dividir tela em algumas produções.

Agenda de filmes: 
01/10 – Drácula de Bram Stoker (1992)

02/10 – Frankenstein (1931)

03/10 – A Noiva de Frankenstein (1935)

04/10 – A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

05/10 – O que fazemos nas sombras (2014)

06/10 – Um Lobisomem Americano em Londres (1981)

07/10 – O Homem Invisível (2020)


Pode parecer uma surpresa, mas nem sempre os vampiros brilharam no sol e lutaram do lado do bem. Um dos primeiros livros sobre a temática a chegar ao mercado de massa em 1897 foi o clássico romance de Bram Stoker, DRÁCULA. 

O vampiro mais icônico da história já teve incontáveis adaptações em diversas mídias. Uma das mais famosas é a estrelada por Bela Lugosi, em 1931.

A minha minha adaptação favorita é justamente a sugestão número 1 deste desafio e que, na minha opinião, é uma das mais fiéis ao livro de Bram Stoker. O filme foi lançado em 1992 e dirigido pelo lendário diretor Francis Ford Coppola. No elenco também temos nomes populares como (o maravilhoso) Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves e Anthony Hopkins.

O que mais me impressiona neste filme é o fato de que Drácula, em situações normais, pode não ser um personagem muito simpatizante. Porém, a atuação de Gary Oldman é tão encantadora que não é difícil torcer para que Mina fique com seu príncipe, contrariando todos os esforços do Doutor Van Helsing.

Minha história com este filme começou mais ou menos aos 15 anos, quando descobri que terror era um dos meus gêneros favoritos. Ganhei o livro de Bram Stoker de um namorado na época, e por muitos anos ele foi o meu xodó (o livro, não o namorado). Tinha dedicatória com direito a "eu te amo" e tudo o mais - muito coerente com a chamada "love never dies". Li duas ou três vezes seguidas na época, até descobrir o filme. E aí foi outro vício. Mesmo depois de tantos anos eu ainda tenho a mesma sensação sinistra com a trilha sonora e as cenas de empalamento com o (não citado) vovoida Vlad Tepes, da Lucy vampira (eu tive medo dela mesmo em seus termos "normais") e do lobisomem Drácula.


Ao mesmo tempo em que cenas como a em que Drácula nega a Deus me causam perturbação, eu me pego torcendo por um final feliz pra ele. Afinal, este Drácula não parece ser o vilão, mas sim o herói romântico, vitima das circunstâncias.

O triste final (a meu ver) de Drácula me lembra também o triste final do meu livro (aquele do ex-namorado). Emprestei a uma colega anos depois, já na faculdade. E ele foi devolvido "inlível": molhado, manchado, sequer fechava. Chorei. Arranquei a página da dedicatória (apenas para jogá-la fora em uma limpeza da casa tempos depois) e comprei uma nova cópia.


"There's too much to learn from the beasts."



"Absinthe is the aphrodisiac of the self. The green fairy who lives in the absinthe wants your soul. But you are safe with me."



"Take me away from all this death."



"Give me peace."

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Sobre o amor que é sempre horrível



Vim escrever porque preciso registrar esse sentimento novo: o de ser compreendida, traduzida, de encontrar eco para os próprios sentimentos. Eu encontrei isso em uma série de duas temporadas da BBC. A famosinha FLEABAG, escrita e atuada pela Phoebe Waller-Bridge.

Há algo de muito cômico e ao mesmo tempo muito triste nela. A gente rí, ao mesmo tempo em que se emociona com todo o luto da primeira temporada, e depois de desespera torcendo por todo o drama da segunda temporada em uma situação que claramente está fadada ao fracasso.

E apesar disso, a série avisa desde o início: trata-se de uma história de amor.

Não tem um final feliz - claro que não. Pelo menos não o que eu esperava para mim. E eu acho que justamente por isso eu me impressionei tanto. E ai eu fiz o que sempre faço: eu me apaixonei de um segundo a outro, sem me dar conta, apenas para ter meu coração massacrado enquanto meu amor vai embora no sentido oposto da calçada me deixando pra trás. 

Mas pelo que conhecemos da Fleabag, ela vai sobreviver. Mesmo com o coração em pedaços, ela se levanta e segue seu caminho. E vai ao som de Alabama Shakes.


"O amor é horrível. Horrível. É doloroso. É assustador. Faz com que você duvide de si mesmo, se julgue e se distancie das outras pessoas na sua vida. Ele te torna egoísta, esquisito, te deixa obcecado com o seu cabelo, te faz cruel, te faz dizer e fazer coisas que você nunca pensou que faria. É tudo o que qualquer um de nós quer, e é um inferno quando finalmente conseguimos. Então não é de se admirar que o amor seja algo que não queiramos fazer sozinhos. Eu fui ensinado que, se nascemos já com amor, então o ponto da vida é escolher o lugar certo para depositá-lo. As pessoas falam muito sobre isso, sobre “parecer certo”, que “quando parece certo é fácil”. Mas não tenho certeza se isso é verdade. É preciso muita força para saber o que é certo. E o amor não é coisa para os fracos. Para ser uma pessoa romântica é preciso ter muita esperança. Eu acho que o que eles querem dizer com isso é: quando você encontra alguém a quem ama, isso se parece um pouco com ter esperança."
Fleabag s02x06








domingo, 6 de setembro de 2020

Sobre as dançarinas da Elba



Aconteceu durante as férias na Bahia no ano passado, quando fugi de São Paulo durante uma semana e desejei com todas as forças que aqueles dias passassem o mais devagar possível.

Nos últimos anos viajando, percebi que cada roteiro tem uma trilha sonora. Aquela música que toca aleatoriamente e da qual na verdade você nem gosta, mas que te revela o sentido daquele momento. A partir dali essa mesma musica adquire o poder de te despertar todos os sentimentos experienciados no passado, em qualquer ocasião em que escutá-la no futuro.

No Pará, Dona Onete me embalou no carimbó. Em Floripa foi o Queen com as canções que parecem a triste despedida do Freddie. Em Carrancas eu ouvi Charlie Brown até perceber que finalmente estava livre pra poder buscar o meu lugar ao sol. Em Ilha Grande eu pedi para os anjos cantarem por mim. Lenine foi o autor da minha trilha sonora em Bonito. E em Pernambuco, quando ele deveria tocar nos meus ouvidos, quem roubou a cena foi Tom Jobim.

Na Bahia, enquanto voltávamos para o hotel depois de visitar alguma das maravilhosas cidades vizinhas de Porto Seguro, as músicas de Elba Ramalho começaram a tocar na van e embalaram minhas memórias para onde eu sempre vou quando estou feliz e com saudade: eu fixo meus pensamentos nele. Eis o fato: lá estava Elba Ramalho cantando (na verdade, o pen drive cheio de arquivos MP3 estava) e sua voz me incentivava ao tiro de misericórdia: pegar o telefone assim que o sinal voltasse ao meu celular para enviar uma mensagem.

Aquela noite não foi boa. Eu caminhei pela Passarela do Álcool e ela me pareceu o lugar mais triste do mundo.

Aconteceu que "aparentemente" na Bahia Elba Ramalho é muito popular. E o ensolarado dia seguinte em Trancoso correu ao som, dessa vez, não da letra doída que me jogou no fundo das minhas dramáticas memórias, mas sim de um forró pé de serra rascante que fez com que eu, fã de rock n' roll desde o início da adolescência, começasse a me balançar ainda dentro da van na qual afundei na minha própria fossa menos de 24 horas antes e sentisse vontade de me apaixonar novamente, mas dessa vez por aquele desconhecido de olhos verdes que despretensiosamente passou caminhando pela beira do mar da Bahia. Estava proibido cochilar.

A explosão de vida que a voz de Elba Ramalho me causou neste dia foi potencializada quando soube que a artista tinha uma propriedade à beira-mar naquela praia, e ali era frequentemente vista. Em um impulso irresistível, minhas companheiras (que compartilhavam da mesma injeção de felicidade aplicada por Elba) e eu decidimos que encontraríamos a casa e manifestaríamos nossa gratidão/ admiração cantando e dançando frente à ela.

Em determinado momento, já sedentas por uma água de coco após a caminhada sob o sol bahiano, nos pareceu mais fácil gravar um vídeo para o Instagram e marcar o IG de Elba. Escolhemos então um banco de areia cercado de um lado pelo mar, e do outro por um igarapé, e com a camera em mãos, rodopiamos ao som do forró pé de serra daquela manhã em pelo menos 5 tentativas de gravação, que eram sempre interrompidas por uma falha na música, no enquadramento do vídeo ou na nossa própria atuação.

Foi quando, já muito próximas da versão final, notamos que éramos o alvo da atenção de um pequeno grupo que repousava do outro lado do igarapé. Eles gesticulavam, riam e em determinado momento, começaram a andar em nossa direção, o que nos permitiu perceber que tratava-se da guia do grupo e alguns outros turistas que estavam conosco. Com um pouco de vergonha e um pouco de "ninguém me conhece aqui", contamos que fazíamos uma homenagem à Elba Ramalho.

Contamos apenas para passar o resto da semana de férias sendo chamadas de "as dançarinas da Elba", vez que a guia (e o grupo) foram os mesmos na maior parte dos passeios que fizemos durante a viagem.

Tenho certeza de que Elba Ramalho jamais viu nosso vídeo.

sábado, 8 de agosto de 2020

Sobre a véspera do Dia dos Pais


Fiz um pedido errado no Ifood.

Eu não tomo refrigerante há alguns anos e mesmo assim pedi uma garrafa para acompanhar meu gnocchi com almondegas neste sábado.

Eu não tomo refrigerante desde que resolvi barganhar com Deus. Prometi que se ele mantivesse a vida do meu pai, mesmo diante da doença grave com a qual foi diagnosticado naquele momento, eu entregaria a Ele meu grande vicio da época e pararia de beber os quase dois litros de refrigerante que consumia a cada dia.

E mesmo assim, sem nem perceber, pedi uma garrafa de soda hoje.

O que veio a calhar porque na ânsia de fazer valer os abusivos R$ 7 que paguei na garrafinha de 400ml, eu rapidamente pensei em um modo de me livrar da culpa e transformar aquele refrigerante em um drink (desta forma minha moral não ficaria abalada em consumi-lo para lidar com este dia). Misturei licor com soda e aqui estou, com um teclado sob os dedos tentando anestesiar toda a frustração.

Os últimos meses no trabalho tem sido uma droga, a situação mundial é desoladora, a cada dia se vê mais uma triste noticia na TV e eu não consigo parar de remoer meu relacionamento com meu pai na véspera do Dia dos Pais.

 Meu pai parece não ficar satisfeito enquanto todos à sua volta não estiverem se sentindo miseráveis (talvez tanto quanto ele?). Ele passou por bons traumas, desde a perda do pai suicida, até a morte do irmão gay com AIDS nos anos 80 com apenas 27 anos (abafada até hoje por uma pneumonia).  Estas vivências são os parâmetros dele.

O histórico dele começou com minha mãe. Proibiu-a de trabalhar e estudar ao se casarem, cometeu traições, ameaçou suicídio quando foi descoberto, e ao ser perdoado, começou a convidar mulheres aleatórias pra andar na garupa da moto dele sem o mínimo cuidado em esconder ou justificar porque minha mãe, sem estudo, sem trabalho e com dois filhos pequenos nos anos 90 dificilmente o deixaria. Durante 30 anos ele a transformou na histérica ciumenta, escandalosa e acomodada aos olhos de todos. Foram 30 anos até que ela finalmente resolvesse se libertar e ir embora.

Na minha vida não foi tão diferente. Desde pequena ele aprendeu a controlar pelo medo. Quando eu, adolescente rebelde, comecei a questionar o que ele dizia, ele passou a controlar por privação. Depois por chantagem. Hoje, com gritos, agressões verbais e outras psicológicas. Minha irmã não aguentou por muito tempo e viu no casamento aos 25 anos uma forma de escape. Separou-se em menos de  1 ano e hoje vive e algum lugar que eu desconheço. Ninguém nunca sabe onde ela está, exceto por raras ocasiões em que ela aparece para cumprir seu papel social, em Natais ou aniversários.

Eu me lembro de dizer “eu te amo” pra ele no meu aniversário de 15 anos e ouvir a resposta debochada de que eu estava querendo aparecer na frente de todos. Quando, feliz por ter acessado meu boletim na faculdade e constatado perto da 00h00 que tinha conseguido a média do último semestre para me formar depois de 5 difíceis anos de graduação, gritei de felicidade e ao invés de me dar parabéns, ele me mandou calar a boca porque já era tarde. Quando chego cansada do trabalho ele me chama de preguiçosa. Quando começo a desinfetar as compras ele me chama de paranoica. Se me percebe satisfeita por qualquer motivo, arruma um assunto para me criticar. Por diversas vezes pensei em deixa-lo sozinho, mas com a doença progressiva veio também minha culpa em ir embora. E eu fui ficando para ajudá-lo. Para aproveitar a vida dele enquanto posso. E agora na boca dele me tornei a solteira que ninguém quer, a que não vai dar netos, com quem o sobrenome da família vai morrer.

Ele nunca me deixou faltar nada material e até fez seus sacrifícios. Às vezes me sinto culpada por estar frustrada em relação a ele.  Em outras penso que a culpa de algumas das minhas limitações pessoais é dele e encontro razão para todos os sentimentos ruins que ele me desperta.

Eu pensei em beber aquele refrigerante, mas tenho medo de brincar com Deus. Então disse a Ele que se misturasse a soda com licor, estaria bebendo um drink e deste modo poderia manter a nossa barganha.

O licor na soda me ajudou a lidar um pouco melhor com a minha frustação hoje. É como se eu tivesse matado um pouquinho meu pai. Mas também o salvei.

sábado, 1 de agosto de 2020

Sobre precisar falar sobre a Gi


Eu preciso falar sobre a Gi.

Mas falar sobre ela não pode ser durante a semana, no meio da preocupação e da correria.
Não pode ser enquanto estou tensa com o horário para acordar amanhã, ou desconfortável em algum lugar possivelmente infectado com coronavírus.

A Gi merece uma reflexão feita numa noite de sábado. E se a pandemia exige, com uma xícara de mate quente do lado, enquanto na TV passa meu filme preferido. Deve ser feita no conforto do meu pijama de algodão, na segurança da minha casa. Sem preocupações, sem pressa.

Porque é assim que ela sempre me fez sentir: segura.

Mesmo quando eu nem a conhecia. Quando eu, num final de 1º de janeiro, decidi que já não podia mais continuar levando a vida que vivia, ou me perderia. Me arrisquei e publiquei. Ela leu. E corajosa, aceitou me salvar.

Antes mesmo de nos conhecermos eu sabia que ia gostar dela. Pelos comentários divertidos e inteligentes nas redes sociais, pelo comprometimento e devoção que demonstrava com sua família, e pelo carinho que os amigos dedicavam a ela. Ao nos conhecermos veio a definitiva certeza.

Nos atrasamos. Passamos vergonha. Elaboramos planos para otimizar nossa situação. Compartilhamos a mesma tendência a evitar confusões (sem contudo sair por baixo). E o gosto pela sonequinha da tarde.
Com a Gi eu visitei a Toca do Raul, e compartilhei meu crush no cara que não sabia contar. Com ela eu corri pela areia com as malas na mão para garantir que sentássemos no mesmo banco na volta pra casa. E foram muitas voltas. Foram pizzas de pequi no cerrado, sacolés de coco no Rio de Janeiro, viagens de balão em Boituva, sorvetes de feijão na Liberdade, trilhas de mais de 10km em Goiás. Tardes preguiçosas sob o sol na areia, cervejas às 10h da manhã em festivais, viagens de trem pela cidade... Mas falar sobre tudo o que já vivemos não era meu objetivo aqui.

A Gi me faz querer ser o melhor que posso. De tão bom coração, às vezes me constrange com todas as minhas imperfeições. Ela é tolerante, generosa, bondosa, justa. Nunca diz não. Ouve. Ajuda (receber uma mensagem dela faz uma diferença gigantesca no meu dia). Escancara sua humanidade e nem por um único segundo durante esses anos me fez sentir em dúvida sobre o fato de poder contar com ela para o que for necessário.
Ela não pressiona, não julga. Entende como as pessoas são e sempre faz o melhor para que elas se sintam bem. Ela acalma, acolhe, aceita. 

Frequentemente penso que não merecia ter uma pessoa tão incrível na minha vida. Sempre fico com a sensação de não estar retribuindo o suficiente toda a dedicação que ela tem comigo.
Vocês já conheceram alguém assim? Que de tão surreal faz contraste com tudo o que falta em você mesmo?
Eu lamento não ser parecida com ela. Queria ser mais afetuosa, mais aberta, estar mais presente, ter estado em seus aniversários. Faço planos para melhorar, mas toda hora aparece um "problema" (uma chuva, uma falta de dinheiro, uma preguiça, uma pandemia). E mesmo assim ela nunca deixou de estar lá pra mim.

Ela me inspira diariamente, tanto por seu exemplo, quanto pela fé que demonstra em mim. E todas as formas de agradecimento nas quais consigo pensar me parecem insuficientes para a grandeza da pessoa que a Gisele é.
É por ela que eu torço, vibro. É por ela que procuro quando tenho notícias boas, e quando preciso de consolo.
É pra ela que eu desejo toda a felicidade que o mundo tem a oferecer. Que nada te machuque. Que a vida seja boa pra você. E que a luz do seu coração ilumine todos os seus caminhos. 

Gi, eis seu texto. O que precisava vir do coração. Apesar da demora, saiu.

Amo você. Obrigada por ter lido aquela publicação.